quarta-feira, 22 de junho de 2016

As aventuras de Huckleberry Finn - Mark Twain


               Há quase dez anos eu havia passado por aquele mesmo lugar. O meu amigo Emerson, que largou tudo para se aventurar em outro país, havia me deixado ali, para que eu fizesse a minha longa viagem de volta para casa. Muitas coisas se passaram pela minha cabeça. Em Hartford, pensei no que Hemingway disse: “Toda moderna literatura americana procede de um livro de Mark Twain, Huckleberry Finn”. Da primeira vez em que pisei em Connecticut, me lembro claramente de minha vontade de visitar Twain, enquanto eu passava os dias na casa do meu amigo. Acabei me deixando ficar no cotidiano de amizade, abandonando explorações literárias naquela ocasião. Enfim, dez anos depois, meu amigo já não morava mais por ali, então, restava visitar, finalmente, a casa de Twain.
               “As aventuras de Huckleberry Finn” é a continuação de “As aventuras de Tom Sawyer”. Tom e Huck eram amigos e cada qual é protagonista de um dos livros, com o outro como coadjuvante. Mas a questão é que o que percebo nesses livros (ou o que quero perceber) é a essência da amizade, a maior aventura de todas. Huck Finn acaba simulando a própria morte para fugir de casa e se aventurar pelo rio Mississípi na companhia de Jim, um escravo fugido. Não gosto de contar muito sobre uma obra, porque cada um deve seguir as aventuras de um livro por conta própria, com todas as interpretações certas ou erradas sobre o enredo. Se é que há tal coisa de certo ou errado. 
               Quando éramos crianças, eu e meu amigo Felipe ensaiamos fugas. Queríamos saltar no vagão de um trem que passava perto de casa, para ir pra sei lá onde. Felipe era um cara que não conhecia limites quando se tratava de “defender” ou apoiar um amigo. Passava por cima de qualquer coisa. Cometemos alguns erros, claro. Mas eram erros infantis, que, graças à Deus, nunca levaram a maiores consequências. Mas em algumas situações, sei que colocamos nossas vidas em risco. E depois dávamos risada por termos escapado...
               Enquanto caminhava por Hartford, ouvindo o eco de outono quebrando debaixo dos meus pés, eu só podia pensar em quanto éramos felizes por podermos contar um com o outro. Amizade verdadeira é algo que levamos com a gente até o fim, mesmo quando o fim do outro chega antes do nosso. A cada esquina daquela cidade desconhecida, eu me lembrava dos meus amigos. Das caronas irresponsáveis, das brincadeiras estúpidas, das mentiras que se tornavam verdades... E o que tudo isso tinha a ver com Mark Twain? Eu só estava mesmo me baseando em uma frase dele:
               “A função correta de um amigo consiste em apoiar-te quando erras. Infelizmente, a maior parte das pessoas só está do teu lado enquanto permaneces no caminho certo”.




               Quando cheguei à casa de Samuel Clemens, o verdadeiro nome de Mark Twain, fiquei admirado com o lugar. De fato, foi difícil para os Clemens se mudarem daquele lar, quando começaram a enfrentar dificuldades econômicas por conta de maus “investimentos”. Naquele lugar, as melhores obras de Mark Twain nasceram, incluindo “As aventuras de Huckleberry Finn”. E por que esse livro é tão especial para mim? Porque ao ler suas páginas reencontro o cara que não media o certo ou o errado quando olhava pra um amigo... 
               O livro chegou a ser banido pela Biblioteca de Concord, por ser um mau exemplo para os jovens. Pois bem, o que seria um mau exemplo? Foram os erros que cometi com os meus amigos que me ensinaram muito mais do que os acertos... Por exemplo, eu não tinha dinheiro (se quisesse continuar comendo até o fim da peregrinação) para pagar pelo ingresso para entrar na casa-museu. Percebi que seria possível entrar mesmo assim, pois um tipo de filmagem estava sendo preparada e um pequeno caos estava estabelecido na entrada. Poderia ter feito isso em nome dos velhos erros? Sim. Mas não o fiz. Errar uma vez por rebeldia, ingenuidade ou seja lá o que for é uma coisa. Repetir erros sistematicamente, tornando-os aceitáveis para nós mesmos, isso já é outra coisa. Muitos consideram a obra como racista, pelo jeito em que Jim é descrito, como um negro ingênuo e, por vezes, inferior. Para muitos naquela época, a horrenda escravidão era aceitável socialmente e legalmente correta. Mas só porque a “sociedade” afirma que algo é aceitável, devemos aceitar? Se as leis dizem que algo é correto está tudo bem? 
               A beleza de Huckleberry Finn consiste em mostrar que dentro de uma balsa descendo um rio, no qual os olhares da sociedade não navegam, a verdadeira amizade pode florescer, livre de qualquer julgamento do que pode vir a ser certo ou errado. 
               Sei que o meu amigo Felipe nunca iria querer visitar a casa de Twain, nem o meu amigo Emerson, que apesar de ter morado ali perto, nunca visitou a tal casa  do escritor. Cada um tinha um sonho, uma meta, um caminho correto a ser seguido. Era eu quem queria me tornar um escritor, por isso estava ali. Quando somos crianças, parece que nossos caminhos são iguais. Caminhamos juntos até que, em certo ponto, nos separamos, cada um em busca do próprio objetivo, da coisa certa a se fazer pelo caminho. Mas, mesmo quando nos lançamos ao rio da infância e nossas balsas se separam no delta da vida adulta, no fim, sempre acabamos no mesmo mar. De certa forma, ainda acredito nesse reencontro... É essa a aventura que está por vir que eu e meu amigo Felipe, que foi antes de mim, iremos seguir, a fuga em busca da verdadeira liberdade, em que certo ou errado são apenas palavras sem qualquer julgamento...
              
              

Próximo capítulo no dia 06/07: A Cabana do Pai Tomás - Harriet Beecher Stowe.

               

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway


               Após várias horas de viagem, cruzando paisagens desérticas e localidades encravadas no vazio, eu já tinha perdido a noção de que estado estávamos, quando o ônibus parou em um posto de conveniência no meio do nada. Desci do ônibus para ir ao banheiro. Quando saí de lá, só encontrei o atendente atrás do balcão e ninguém mais. O ônibus havia partido.
               — Acho que você perdeu o ônibus – ele disse, um tanto assustado.
               Tentei ser prático, tentando não me importar com o fato de que a minha mochila, com todas as minhas coisas, tinha ido embora sem mim:
               — A que horas vai passar o próximo?
               — Daqui a 24 horas...
               Saí tão desolado que sequer perguntei onde estávamos. Quando olho para cima, vejo uma placa com a resposta:
               “YOU ARE NOWHERE”.



               Um trocadilho interessante, que poderia significar: “você está aqui agora” ou “você está em lugar nenhum”. Então, qual das respostas eu escolheria?
               Pouco tempo depois, o atendente alegremente me deu a notícia:
               — Eu liguei para a companhia de ônibus. Eles vão tentar entrar em contato com o motorista. Se conseguirem, talvez ele volte.
               Esperança. Quantas pessoas simpáticas eu estava encontrando em meu caminho? Que sentimento de fraternidade e...
               O ônibus voltou. O motorista abriu a porta. Antes que eu pudesse me desculpar, ele me deu uma tremenda bronca. Enquanto eu entrava, ele anunciava pelo microfone:
               — Agradeçam ao passageiro que está subindo neste instante, porque, graças a ele, não teremos mais paradas, nem para um cigarro. Quem descer do ônibus nos próximos pontos será deixado para trás. E dessa vez eu não vou voltar...
               Ouvi o início de uma vaia. E logo vieram os “agradecimentos”:
               — Se eu fosse você, seu f..., não dormiria – disse um.
               — Melhor você vigiar suas costas, China – disse outro.
               Em outra fileira, uma mulher com os dentes cerrados me mostrava o dedo do meio. Outro passou me dando um esbarrão. 
               Depois de sentir toda a simpatia de uma família na Califórnia, que não me enxergou como um estranho, mas como alguém com quem partilhariam fraternalmente uma refeição, senti o outro lado das pessoas: a antipatia e o olhar de distanciamento. O clima de hostilidade me fez refletir sobre a condição humana. Cada um daqueles que me viam como “inimigo” dentro daquele ônibus só queria fumar um cigarro a cada parada que eu detonei com o meu erro. Pedir desculpas, como eu fiz mais de uma vez, não lhes daria a nicotina necessária em seus pulmões para apaziguar toda a ansiedade de uma desconfortável e longa viagem, em que pessoas são obrigadas a conviver, em um pequeno espaço, com outras para quem não dão a mínima, enquanto cruzam a vastidão de paisagens que tampouco se importam com a solidão que cada um carrega dentro daquele ônibus. Se ao menos tivéssemos a companhia um do outro...
               Mesmo com as ameças, acabei adormecendo e acordando em algum lugar. Não me lembro onde, mas só sei que todos estavam cansados demais para continuarem a me condenar. Algum tempo depois, eu chegava a Chicago, de onde rapidamente tomei um trem suburbano para a vila de Oak Park, pacata localidade onde nasceu um dos maiores escritores da América: Ernest Hemingway.
               Enquanto caminhava por Oak Park, relembrei a primeira vez em que li Hemingway, em um empoeirado volume de “O velho e o mar”, emprestado da pequena biblioteca de Caraguatatuba, cidade litorânea. Eu estava tomando conta da casa da minha mãe e do meu padrasto, que estavam no exterior. Naquela época eu ainda não tinha publicado nenhum livro. Tentava escrever, mas não conseguia. Então, eu apenas lia, o mais próximo que eu podia chegar da Literatura, que eu havia escolhido como propósito de vida, sem saber como um dia eu poderia tornar essa escolha uma realidade. Devorei o livro. Quando o fui devolver à biblioteca, com as páginas sendo folheadas pelo vento na cestinha da bicicleta enquanto eu pedalava pela orla, fiquei imaginando o que tudo aquilo que estava na minha cesta significava. Quem eu era naquele momento? Eu era o velho Santiago, pescador desacreditado por quase todos, mas que se lança ao mar mesmo assim? Era o jovem Manolin, que acreditava ainda no velho pescador? Era o peixe devorado? O tubarão?
               Foi um livro que me marcou muito e por isso eu queria compreender tudo o que ele significava. Até tentei pesquisar sobre a obra, até me deparar com a resposta do próprio Hemingway:
               “Não há qualquer simbolismo. O mar é o mar. O velho é um velho. O garoto é um garoto e o peixe é um peixe. O tubarão é como todos os tubarões, nem melhor nem pior. Todo o simbolismo que as pessoas enxergam é merda. O que vai além é o que você vê além...”
               Muitos anos depois, ao ler “Por quem os sinos dobram”, eu já não me fiava em símbolos, nem buscava significados ocultos em suas obras. E isso nem seria necessário. Tudo é tão real em Hemingway que nos sentimos mais dentro da “realidade” do livro do que fora dele. E isso não é nem um pouco alentador em certas linhas...
               E foi pensando em minha relação com esse escritor, que finalmente me deparei com uma placa cravada no chão, que atestava que aquele era o “local de nascimento de Ernest Hemingway, no dia 21 de julho de 1899”. Era muito cedo, e a casa que testemunhou as primeiras lágrimas de Hemingway ainda dormia. Sentei-me na varanda úmida, com as folhas molhadas de frio no quintal. Então, brinquei de folhear aquelas folhas, como se cada uma delas pudesse me contar uma história. Em que ponto da vida de Hemingway, que havia nascido ali, voltou-se para a consciência da morte? Será que eu estava indo muito rápido na biografia deste escritor?




               Em “Por quem os sinos dobram” acompanhamos a missão de Robert Jordan, encarregado de explodir uma ponte durante a Guerra Civil Espanhola. Para isso, ele precisa contar com a ajuda de várias pessoas, com quem convive e absorve novas formas de enxergar o mundo. Hemingway presenciou essa guerra na vida real, bem como a guerra entre gregos e turcos, caçou barcos alemães na costa de Cuba, testemunhou o desembarque na Normandia no Dia D e chegou a matar um soldado nazista... Por fim, se matou aos 61 anos...
               De leste a oeste, em vários cantos da América, vi monumentos e cruzes em memória a alguém que morreu em alguma guerra, seja a civil americana ou em terras distantes, como em Bagdá... Em uma parada durante a longa viagem a Chicago, na pequena localidade de Ogalalla, havia uma placa em memória a um sargento que morreu no dia 04 de novembro de 2005, no Iraque... Ao lado, a silhueta de um caubói de cabeça baixa. Provavelmente, em Bagdá talvez existam placas como aquela também, só que em árabe...
               Ao ler “Por quem os sinos dobram” percebo, sem qualquer simbologia, que há heróis e vilões dos dois lados de qualquer guerra. Por que não podemos aceitar que é muito melhor viver em um mundo em que todos somos iguais, ao invés de estabelecermos “diferenças” bélicas? Fico, assim, com as palavras do poeta John Donne, cujo verso inspirou o título da obra-prima de Hemingway:

“A morte de cada homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. Portanto, nunca procure saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

               Antes de partir de Oak Park, uma fina chuva começou a cair. Vi uma mulher segurando a mão de um garoto, ambos protegidos por um guarda-chuva. Enquanto eles se distanciavam, fiquei imaginando em que momento da vida largamos as mãos de nossas mães e corremos para longe de seu imenso guarda-chuva protetor, para nos encharcarmos nas frias lágrimas de alguma guerra...


Próximo capítulo no dia 22/06: As aventuras de Huckleberry Finn – Mark Twain.



              



               

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O uivo - Allen Ginsberg

Era apenas uma carona, mas o destino não era qualquer um: São Francisco. Renate ergueu a mão em despedida, o filho partiu, carregando um recém-estranho. A estrada era uma longa noite em que uma mãe acordaria no dia seguinte para seguir o rastro de Jack London e em que uma filha (irmã do homem ao volante naquele carro) se voluntariava no Afeganistão em busca de algum mundo ideal – que inexiste?
               Fred mantinha os olhos na estrada, falando amenidades. Cruzamos a ponte dos suicidas e adentramos pelos bairros em que mendigos só encontravam muros. Mas, ainda assim, Fred sorria. Em um breve lampejo, enquanto o carro cruzava a Columbus Avenue, Fred anunciou:
               — Lá está a City Lights.
               Tremi ao ouvir esse nome. Lá estava a lendária livraria e editora independente de Ferlinghetti, que publicou “O Uivo” de Allen Ginsberg, dando voz às ruas até então mudas. E o longo uivo começa assim:

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite...”

               Um uivo que foi ouvido em todos os becos do mundo! E tão extasiado fiquei, que me esqueci de pedir para descer ali (não havia tempo de qualquer forma). Mas, antes, com as mãos trêmulas, ainda tirei uma foto, que pode muito bem refletir o que senti ao passar diante da City Lights. Apenas um eco de imagem, um sopro...





               Que poética maneira de conhecer a City Lights, assim como um cometa efêmero, passando de carona, sem tempo nem menos para um rápido folhear entre os volumes mortos da livraria dos beats. Rápido, rápido! Não pare! Assim deveria ser. E assim foi.
               Este é um breve relato, mas é porque eu sigo o uivo. Acabo de voltar de Ipatinga e BH, onde conheci poetas loucos (a loucura dos versos que curam a sanidade) e, daqui a alguns instantes, pegarei novamente minha bagagem de livros, para semear as pequenas poesias do dia a dia em uma ilha... sem Internet, sem sinal de celular... Ah! Desculpem-me pela pressa, mas devo pegar a estrada, rápido, rápido... As luzes da cidade irão se apagar, rumo ao mar.
               Eu ia acabar este relato aqui, mas não posso. Pois devo dizer o que mais aconteceu naquela noite, depois que o filho de Bialy me deixar na rodoviária de São Francisco. O meu ônibus prestes a zarpar rumo ao leste, onde o sol nasce. Mas antes, ainda vi a bondosa Renate, um tanto ofegante e trôpega, trazendo debaixo do braço o meu guia. O guia que eu havia esquecido em sua casa. O meu guia pessoal, com os mapas, as anotações, os endereços da América que eu mesmo compilei para a minha peregrinação.
               — Achei que fosse importante, por isso eu vim – ela sorri, recobrando o fôlego.
               Sim, era importante. Não as anotações e os mapas do meu guia, mas a presença da mãe que dirige centenas de quilômetros apenas para garantir que as ovelhas desgarradas ainda tenham algum rumo na vida. Há destruição e desgraça, há escuridão e solidão, mas há ainda também a família de Renate Bialy, a mão estendida, a graça, a luz... Não importa o quanto o mundo anda surdo nestes tempos escuros. Ainda assim é preciso uivar...
               Muito obrigado, Renate Bialy!






Próximo capítulo, dia 08/06: Por quem os sinos dobram – Ernest Hemingway.
Desculpem-me avisar assim, as postagens a partir de agora serão quinzenais, para desacelerar um pouco a peregrinação. Obrigado!



quarta-feira, 11 de maio de 2016

O chamado da floresta - Jack London

  

               Embarquei em um ônibus com 4500 quilômetros de asfalto deitados à frente. Era o mítico e vasto Oeste me chamando de tal forma que seria impossível ignorar o chamado. Por que eu estava disposto a cruzar o país inteiro em busca de apenas um escritor? Porque era por Jack London.
               Nesta longa (Maryland) e aparentemente interminável jornada (Pensilvânia), sentaram-se ao meu lado não apenas os personagens da América (Ohio), mas a realidade de um mundo tão vasto quanto a estrada que percorríamos (Indiana). E assim, me acompanharam nesta mágica viagem: um africano (Kansas) que afirmava ser rei (confessou-me mais tarde que era apenas descendente de um rei que perdeu seu reino em algum lugar da África – não especificou o país, pois não reconhecia suas fronteiras), (Colorado) um refugiado paquistanês que não falava a língua do país (Wyoming) que o acolheu, mas que com o sorriso sabia agradecer por isso... e tantos outros que provavam que o mundo (Utah) se encontrava na estrada. (Nevada) Três dias depois, em uma silenciosa madrugada, o ônibus finalmente me despejou do outro lado do continente (CALIFÓRNIA), na cidade banhada pelo Pacífico: São Francisco!
               Não desperdicei meu tempo e tomei um ônibus urbano para a ponte Golden Gate. Queria atravessá-la a pé. O sol ainda não havia nascido e mesmo que estivesse claro, eu não conseguiria ver a ponte vermelha, pois toda a baía estava coberta pela neblina. Aos poucos comecei a enxergar o alto das torres da ponte, que pareciam mastros de um navio fantasma. Logo no início da travessia, encontrei o primeiro sinal de que aquele era o lugar em que mais suicídios eram cometidos no mundo. Um telefone acompanhava a placa: “Há esperança / Faça a ligação”. Ao chegar no que acreditei ser a metade do caminho, parei para contemplar o amanhecer. Imaginei que se os suicidas tivessem esperado por um amanhecer como aquele, não teriam saltado para o anoitecimento eterno.  Meus olhos se encheram de tal forma que era como se eu testemunhasse o parto do mundo. No horizonte, os prédios pareciam flutuar sobre um mar vermelho, enquanto a humanidade despertava para mais um dia.



               Jack London escreveu “Não desperdiçarei meus dias tentando prolongá-los. Usarei meu tempo”. Era isso o que eu tentava fazer ao atravessar a Golden Gate. Meu dia não seria longo, mas eu estava decidido a usar o meu tempo para vivê-lo dignamente. Ao final da ponte, tentei obter informações com um homem que havia parado para admirar a manhã na baía de São Francisco, em uma van adaptada como lar. Ele estava indo para a direção oposta à minha, cruzaria a ponte para a cidade, mas ele apenas disse:
               — Entre que eu te levo até o ponto de ônibus. Eu te levaria até Santa Rosa, mas tenho horário para chegar à faculdade. Estou tentando ser uma pessoa normal, seguir o relógio, sabe como é, não?



          Em pouco tempo, eu estava em um ponto localizado em um rua bonita. Agradeci e ele partiu em sua van, sem sequer trocarmos nomes. Talvez isso não fosse preciso, pois provavelmente nunca mais nos veremos. Mas sendo este o caso, não seria legal deduzir que este foi um gesto de humanidade? Afinal, aquele homem doou o que tinha de mais precioso. Doou um pouco do seu tempo a um desconhecido, com quem nunca mais dividiria sequer segundos neste mundo... Provavelmente, claro... Nunca se sabe. Mas isso realmente me deixou emocionado. Quando o vi partir, era como se um amigo tivesse me dado uma carona até o início de minha própria caminhada pela vida. Talvez eu estivesse poético demais naquela manhã, provavelmente ainda sob o efeito daquele amanhecer na ponte dos suicidas.
               Depois de algum tempo, eu já estava caminhando pelo Vale de Sonoma, até avistar a entrada do Jack London State Historic Park. Foi uma longa jornada até ali, e não me refiro aos  mais de 4500 quilômetros percorridos, nem aos três dias de viagem. O tempo que me levou até aquele parque era muito maior, desde a primeira vez em que eu conheci o cão Buck e sua saga. Um cão arrancado do conforto familiar em uma casa californiana para ser jogado no selvagem Alasca e a sua “lei do porrete” durante a corrida do ouro e da ganância humana, uma história de sobrevivência que leva Buck a ouvir o “chamado da floresta”, que é atendido entre os uivos dos lobos selvagens! Era esse uivo que eu queria ouvir no vale onde Jack London ancorou sua vida após percorrer o mundo atrás de aventuras e histórias para contar.
               Jack London (pseudônimo de John Griffith Chaney) foi um dos mais populares escritores norte-americanos na virada entre os séculos 19 e 20. Com o sucesso, conseguiu comprar aquela vasta  terra onde pretendia construir a sua casa dos sonhos. Até mesmo os viajantes querem um lar... Mas nem sempre foi assim. Antes de se tornar um escritor de sucesso teve que trabalhar muito como operário, catador de ostras, marinheiro, garimpeiro...  Também experimentou o “trabalho” de vagabundo, saltando em trens de carga e conhecendo a escória das ruas, assim como também viajou pelo mundo, desde as quentes ilhas do Pacífico Sul até o gelado coração do Alasca. Mas toda essa experiência serviu como material para seus escritos. E foi a sua escrita que conseguiu dar lhe um chão que poderia, enfim, chamar de seu.
               Visitei primeiro a “casa das paredes felizes”, como Charmian, esposa de Jack, a chamava. Jack também tinha uma companheira de viagens e ali estavam as memórias de suas aventuras conjuntas. Mas, ainda assim, aquela casa parecia domesticada demais para ser o lar do autor de “O chamado da floresta”. Por isso, não me detive muito por ali, preferindo prosseguir até o seu túmulo que, como Jack pediu, fica debaixo de uma pedra... na floresta. A natureza me acompanhou até lá.

As cinzas de Jack London foram depositadas debaixo desta pedra.

               Após contemplar uma pedra no meio da mata, prossegui a trilha em busca das pedras da “Casa do Lobo”.  Esta sim, seria a casa dos sonhos de Jack. Quando finalmente avistei as maciças paredes de pedra, compreendi porque aquela era a casa dos sonhos dele. Mas nada na história de Jack poderia ser tão simples assim, como construir uma casa e se mudar para o seu interior...
               Quando a mansão estava praticamente pronta, a natureza parecia querer enviar mais uma mensagem para Jack London. O fogo tomou conta da construção, destruindo a casa, que hoje apenas ostenta seu esqueleto de pedra. O lobo não deveria se acomodar em sua toca, mas continuar percorrendo as trilhas selvagens, sob o luar. E enquanto eu caminhava pelas ruínas, senti o ridículo impulso de uivar para a natureza. Claro que não fiz isso, porque eu tinha consciência de que, mesmo estando na estrada há dias, eu ainda era um viajante domesticado, com um longo caminho para poder me juntar à matilha daqueles que conseguem sobreviver a qualquer golpe nesta vida, apenas para viver em liberdade. Sim, eu me sentia livre naquelas ruínas, cercado pela floresta, mas aquela era apenas uma liberdade provisória. Logo eu teria que me preocupar com o tempo. E, sinceramente, foi de fato bem rápido que isso aconteceu. Se eu não voltasse imediatamente, perderia o último ônibus de volta à civilização...


               Apertei o meu passo e, ao chegar em um caminho mais largo, uma simpática senhora de cabelos brancos como o inverno no Alasca parou o seu carrinho elétrico, oferecendo-me uma carona. Era Renate Bialy, uma voluntária que levava os visitantes aos pontos de interesse do parque. Conversamos brevemente e ela me perguntou se eu tinha visitado tais e tais pontos.
               — Nem todos... Tenho que ir embora para pegar o último ônibus.
               Conversamos um pouco e ela me disse que seria uma pena se eu não conhecesse o chalé onde Jack London escreveu suas últimas histórias. Também mencionou o “Palácio dos Porcos” e outros locais pitorescos. Enfim, decidi explorar mais o parque e, se fosse o caso, dormir no mato mesmo por aquela noite. Afinal, que mal isso faria?
               “Usarei o meu tempo”, e fiquei.
               Reencontrei Bialy ao final do dia, com um convite para jantar em sua casa. Ela preparou uma comida tão estupenda que eu sequer poderia descrever o que era. Jantamos eu, ela, sua amiga Olga e seu filho Fred. Uma coisa que percebi enquanto eu estava lá é que não era ela que habitava a casa, mas era mais como se o lar habitasse o coração dela. Afinal, era ali que ela acolhia, de fato, a todos.


               Enfim, eu poderia ter ficado por ali, mas tinha que partir a tempo de pegar o ônibus de volta ao leste, pois o meu tempo na América estava se esgotando. Tampouco eu poderia desperdiçar a carona que Fred me oferecia, de volta a São Francisco, onde ele morava.
               Tempo... Foi isso o que ganhei naquele único dia em que tantas pessoas me ofereceram muito mais do que seus minutos ou horas... o que elas me deram foi simplesmente um tempo livre, e não digo isso como sinônimo de tempo ocioso, mas sim como um tempo realmente livre. Um tempo de liberdade.
               E enquanto o carro de Fred me levava de volta a São Francisco, eu pude contemplar a lua cheia, sentindo o meu coração mais livre do que nunca, como um velho lobo, que uiva atendendo ao chamado da floresta que ainda resiste dentro de cada um de nós.

Próximo capítulo: O uivo – Allen Ginsberg
              

              



quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald


Eu poderia ter ido a muitos lugares em Baltimore, para seguir os passos de F. Scott Fitzgerald, o autor de “O Grande Gatsby”. Mas escolhi um lugar onde suas memórias ainda poderiam estar hospedadas: o Hotel Stafford.


               No passado, o hotel servia a elite de Baltimore e ilustres visitantes, como estrelas de cinema (hotel favorito de Katherine Hepburn) e famosos escritores, sendo o último endereço de F. Scott Fitzgerald em Baltimore, antes de sua mudança para Hollywood.
               Diante do elegante prédio, imaginei as festas que um dia seus salões testemunharam. Talvez seriam festas que o próprio Gatsby daria, se o personagem vivesse em Baltimore e não em Nova Iorque. De qualquer forma, o Stafford poderia representar o Sonho Americano, criticado no grande romance de Fitzgerald. Na virada do século 21, o Stafford Hotel testemunhou a própria decadência, tornando-se um ponto de drogas e prostituição...
               Em um papel timbrado do Hotel Stafford, F. Scott Fitzgerald escreveu:

               "Eu amo Baltimore mais do que eu podia imaginar —  é tão rica em memórias — é bom olhar a rua e ver a estátua do meu tio-avô e saber que Poe está enterrado aqui e que muitos antepassados andaram na cidade velha... Eu pertenço aqui, onde tudo é civilizado e alegre... E eu não me importaria se em poucos anos, Zelda e eu pudéssemos nos aconchegar juntos sob uma pedra em algum velho cemitério aqui. Isso é realmente um pensamento feliz...”

               Quando o escritor chegou a Baltimore, nos primeiros anos da Grande Depressão, desejava retomar a vida com um novo livro, ao mesmo tempo em que tinha a esperança de ver sua musa, Zelda, curada de sua esquizofrenia. Mas nada disso aconteceu, Fitzgerald tinha seus próprios problemas com o alcoolismo... A festa parecia ter acabado. O que poderia se dizer de um personagem, Gatsby, que viveu com fausto os loucos anos do jazz acabando em seu funeral com apenas três pessoas? Durante a vida, enquanto tudo era festa, os salões viviam lotados. Mas na morte... Seria isso triste? O personagem Meyer Wolfsheim justifica sua ausência no funeral:

               “Vamos aprender a demonstrar nossa amizade a um homem enquanto ele está vivo, e não depois que morreu..."

               A vida acompanha um estranho ciclo. Assim como aquele prédio diante de mim, que experimentou o luxo na época em que ainda era o imponente Hotel Stafford, decaiu para se tornar um ponto de prostituição e drogas... e reergueu-se, tornando-se propriedade da Universidade Johns Hopkins (lembram-se do Doutor Gregory House?), que o converteu em residência estudantil. Acredito que jovens o habitam, sem o luxo das antigas festas, mas com o peito cheio de esperança e amizade. Assim espero... Enquanto me afastava do velho Stafford, até imaginei ouvir alguns acordes de jazz...



Próximo capítulo: O chamado da floresta – Jack London.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

O corvo - Edgar Allan Poe


Voltei para Nova Iorque, onde mais uma vez perambulei em busca de nada ou talvez de tudo. Antes do amanhecer, eu já estava em outro ônibus rumo a Baltimore. Ao meu lado sentou-se o C.E.O de uma companhia... de Poesia. Ele estava elegantemente vestido com terno e gravata, mas ainda assim com o olhar de quem se despe diante da Poesia. Tão pesadas estavam as minhas pálpebras naquela noite que adormeci ouvindo palavras que cada vez mais perdiam o sentido. Ao despertar e me deparar com o assento vazio, imaginei se realmente eu havia conversado sobre poesia com um homem de terno e boné, que falava sobre segredos árabes, sobre as noites da África e sobre viagens em ônibus de assentos negros e choros de bebês. Se eu não acordasse com o cartão de visita dele em meu bolso, talvez eu pensasse que tudo não havia passado de um sonho, que nada daquilo tinha realmente acontecido. A vida seria isso? Apenas um cartão de visita? Nunca mais o vi.


Saí do terminal e acabei ao lado do estádio do Baltimore Ravens (os Corvos de Baltimore). Em poucos passos já estava perdido. Pensei, será que se eu perguntar alguém saberia me indicar o caminho para a casa de Edgar Allan Poe? A primeira pessoa que parei disparou:

— Sim, eu sei onde fica. Mas corra, porque a casa dele vai fechar…

A modesta casa de Poe naquela cidade havia se tornado um pequeno museu, que por falta de recursos estava prestes a encerrar suas atividades. O que seria feito do seu acervo? Estaria tudo fadado a ser emparedado para sempre? Corri. Fui me perdendo e perguntando pelo caminho as indicações para a casa de Poe.

— Quem? – alguns indagavam.

A aparente sorte inicial não se repetiu, mas foi falha minha. Eu estava perguntando como se Poe ainda estivesse vivo. A senhora, o senhor… sabe onde fica a casa de Edgar Allan Poe? Só percebi isso quando uma grande mulher negra gritou para as pessoas ao redor:

— Vocês conhecem algum Edgar Poe que mora por aqui?

Quando eu ia esclarecer sobre a mortuária condição de Poe, ela insistiu, como em um leilão de almas:

— Alguém conhece Edgar Poe? Alguém?

E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ela lamentou:

— Como isso é triste. Eu moro nessa vizinhança há anos e não conheço esse Mr. Poe… Ninguém conhece. Isso é mesmo muito triste. Quando ele morrer, quem irá ao seu funeral?

E eu percebi que ela realmente se preocupava com isso. Ela se lamentava sem sequer saber que o funeral já havia ocorrido há mais de 150 anos. Achei o luto daquela senhora tão autêntico que sequer esclareci a condição do vizinho famoso. Despedi-me já preparado a perguntar não mais sobre Poe, mas sobre um pequeno museu por ali, que também estava sendo velado, envolto em um funeral que estava prestes a acontecer. O museu fechado, como o tampo de um caixão. Nunca mais?

Assim continuei por aquela modesta vizinhança, de pessoas simples e dignas, de casas parecidas de tijolos à vista, sem qualquer ostentação. E carregando comigo a imaginária lembrança de Poe em seus últimos dias, perambulando pelas ruas daquela cidade, em delírio, muito mais perdido do que eu estava naquela manhã... O pobre escritor murmurando coisas sobre a sua alma. E foi tentando ouvir esses sussurros que, em uma esquina qualquer, entre as casas geminadas todas semelhantes, encontrei o que buscava...

Até então, das casas de escritores que havia conseguido visitar até ali, aquela era a mais humilde de todas. Edgar Allan Poe foi o primeiro escritor norte-americano a tentar viver exclusivamente como... escritor. Todos os demais tinham outras profissões paralelas. Senti uma tremenda empatia por aquela casa, pois ela era a edificação de um sonho possível: viver da escrita. Uma construção humilde, porém, sólida. Sim, ela estava ali, mesmo que com a porta fechada. A quem caberia abrir as suas portas e janelas?


Sentei-me na soleira, relembrando as memoráveis histórias do detetive Dupin, arrepiado por histórias como "O Gato Preto”, "O Barril de Amontillado” e relembrando “A Queda da Casa de Usher”. Que perfeita vizinhança, que manhã silenciosa velando uma casa fechada com seus segredos... Mas o ponto alto de minha peregrinação à casa de Poe em Baltimore foi o grasnar... de um corvo!

Ah! Que poética experiência! Que perfeita forma de cumprir o meu intento, de tentar vislumbrar a alma deste grande escritor. E tal foi a impressão daquele grasnar e das asas negras alçando voo, contrastando com o azul do céu, que sequer cogitei procurar pelo túmulo de Poe naquela mesma cidade, para encerrar a minha peregrinação. Para o fim, bastava relembrar alguns versos de seu poema mais famoso, “O corvo”:



“Sorriu-me o triste pensamento;

Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;

E mergulhando no veludo

Da poltrona que eu mesmo ali trouxera

Achar procuro a lúgubre quimera,

A alma, o sentido, o pávido segredo

Daquelas sílabas fatais,

Entender o que quis dizer a ave do medo

Grasnando a frase: ‘Nunca mais’.”



Aquele museu estava de portas fechadas, um ninho sem corvo? Reabriria um dia ou nunca mais? Levantei-me da soleira e sem sequer tentar girar a maçaneta da porta daquela casa velada, fui embora tentando encontrar no céu o corvo que já havia partido antes de mim. E a única coisa que encontrei no ar foi a dúvida, sem qualquer vestígio de resposta:

“Nunca mais?” 


Consegue encontrar o corvo?


P.S.: Alguns anos depois de minha visita a Baltimore, o museu foi, felizmente, reaberto!




Próximo capítulo: O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Moby Dick - Herman Melville

Tomei o trem de volta, depois um ônibus. Já era madrugada nos bancos do terminal de Boston, quando joguei o corpo ao sonho. Ao amanhecer, percorri as ancoradas ruas, com os pensamentos à deriva. Os passos me levaram ao mar. O mesmo mar que atraiu Herman Melville. A bordo do baleeiro Acushnet, Melville singrou os Mares do Sul, até desertar o navio nas ilhas Marquesas. Entre os ilhéus, encontrou inspiração para os seus dois primeiros romances: “Taipi: paraíso de canibais” e “Mares do Sul”. Conseguiu um relativo sucesso, que não se manteve durante toda a vida. Moby Dick foi um fracasso de vendas... Aos 72 anos, Herman Melville morria totalmente desconhecido, a ponto de seu nome ser registrado no obituário de um jornal como “Henry Melville”. De que adianta a glória póstuma, que registrou o nome de Melville como um dos maiores escritores da América, e a sua obra “Moby Dick” como um clássico mundial?


               Não importa quanto tempo havia se passado desde o dia em que Melville retornou, desembarcando em Boston de suas aventuras pelos mares do mundo, com a bagagem repleta de oceano... Ainda hoje, não há como ficar indiferente diante do mar. E foi por isso que eu dei as costas a ele e rumei de volta ao interior, para a cidade de Pittsfield, em busca de uma montanha…
               Parece não fazer muito sentido, mas quanto mais eu me afastava do mar naquele ônibus, mais próximo eu me sentia a ele. Assim cheguei a caminhar pelas ruas de Pittsfield, com o céu cuspindo gotículas de água em meu rosto. Em pouco tempo, meu corpo era fustigado pela chuva. Eu estava próximo a casa em que Herman Melville colocou o ponto final em “Moby Dick”. Estava prestes a ser alvejado pela ponta da Arrowhead, como é chamada a sua casa, que hoje se tornou um museu.  Por falar nisso, tive que pagar com o valor da comida de um dia inteiro pelo meu ingresso. Isso fez meu estômago reclamar.  Estava um tanto cansado de noites sem cama e um tanto incomodado com a chuva...
               Não havia muitos visitantes, contei todos nos dedos da mão. O pequeno grupo embarcou na casa como quem entra em um escaler, olhos fixos nas mãos do timoneiro, que apontava para as relíquias resgatadas de um tempo naufragado. E as citações dos livros de Melville ecoaram pelas paredes, como intermináveis ondas. Era como se uma tempestade se avizinhasse. Não, muito mais que isso. Que sensação era aquela, dentro do quarto de Melville?  Sobre Arrowhead, o escritor revelou em uma carta:
               “Eu tenho uma espécie de sentimento de mar aqui no campo ... O meu quarto parece uma cabine de navio; e à noite, quando eu acordo e ouço os ventos guinchando, eu quase imagino que há muita vela na casa, e que seria melhor ir ao telhado para guarnecer a chaminé”.
               O assoalho rangeu e através da janela o timoneiro apontou para o horizonte, anunciando: Moby Dick. Lá estava a inspiração (lenda?) para a Moby Dick de Herman Melville: o Monte Greylock, com sua insuspeita forma de baleia. Ou não? Uma densa neblina cobria os campos e no horizonte não havia nada além do invisível.
               Quando o tour pela casa acabou, os outros visitantes simplesmente embarcaram em seus carros e navegaram o asfalto, rumo às suas casas. Para onde eu iria? O guia também foi embora, porque aquele seria o último grupo do dia. Não chovia mais. Estava tudo calmo. Continuei andando pelos arredores da casa, como quem admira um navio ancorado no porto. Sentei-me na varanda da casa, apertando os olhos para tentar extrair do horizonte alguma silhueta de baleia. Nada. Levantei-me para explorar os arredores.
               No campo próximo encontrei uma representação de uma baleia parcialmente “mergulhada” na terra...  Dois homens em um barco. Enquanto um remava, o outro direcionava um arpão para o dorso do cetáceo. Aquela cena congelada me fez refletir. Não pensei em Ismael ou no capitão Ahab, nem em sua obsessiva busca por Moby Dick e o desejo de matá-la, em vingança por ela ter levado a sua perna. Estranhamente, apesar de estar diante de uma tragédia anunciada, orquestrada por um homem que tentava ultrapassar os limites do impossível, senti apenas uma estranha paz.  Como aquele pequeno homem poderia vencer uma grande baleia branca? Essa não seria a mesma luta de todos nós, meros mortais, diante do inevitável destino ou da face de Deus?


               Lembrei-me da primeira vez que vi uma baleia viva. Na verdade, mais de uma. Eu estava sobrevoando a costa da Austrália, quando o capitão apenas anunciou aos passageiros:  “Olhem para as baleias. Não parecem peixinhos?”.  Sim, aqueles gigantescos seres pareciam apenas pequenos peixes na vastidão do oceano...
               Então, essa lembrança soprada do outro lado do mundo me fez sorrir nos ondulados campos de Melville. Afinal, tudo é uma questão de ponto de vista. A minha busca nesta vida nada mais era do que um ínfimo plâncton entre os dentes de um peixinho no oceano. Tudo o que imaginava que poderia ser grandioso, escrever um livro, viajar o mundo, ir atrás da Moby Dick de Herman Melville, era apenas um minúsculo acontecimento, um ínfimo milésimo de segundo na face do tempo. Mesmo assim, como era bom poder enfrentar cada pequeno desafio (fome, chuva, cansaço) na busca em dar à minha vida... ao menos uma gota de oceano.







Próximo capítulo: O corvo – Edgar Allan Poe.